Dia 17


. Acordar, beber café, lavar alpendre, limpar janelas.
Limpar vidros, puxadores, interruptores.

Há um cheiro a lixívia que se agarra à “roupa de andar por casa”. É o cheiro a limpezas da Páscoa, quando expulsamos o inverno e nos preparamos para acolher dias maiores.

As miúdas acordam. Venho para dentro, “um beijo, mamã”, e eu fico de alma cheia porque no meio de tudo isto – que dentro de casa, dentro de muros, pouco mais é que quase nada – ainda há espaço para beijos e abraços, para Ioga de pés descalços, para colo de colos pequenos.

A Mariana afina os planos da festa de anos (vão ser 10, daqui a dias), que incluem bolo de chocolate e um dia sem trabalhar. “Tens pasta de açúcar, não tens, mãe?”
E eu digo que sim, e faço um esforço para me lembrar de quantas gotas de água se misturam em açúcar em pó, e quanto tenho de mexer até que a mistura se forme em creme.
Tudo se faz, tudo se resolve. Tudo se (re)inventa.

A avó Lúcia trouxe bolachas, “de baunilha”, “as que nós gostamos”,
e eu percebo que para elas as bolachas de baunilha são como os biscoitos de limão que eu comia quando era pequena: sabem a casa da avó, a abraços apertados.
Digo-lhe “tenha cuidado”, e sinto no peito o orgulho de ser sua nora.

Agora é fim do dia, hora de banhos.
O ar cheira a noite e a relva cortada, e na cozinha há biscoitos.
Falei com os meus, e o coração serenou.
Por hoje basta, o corpo está cansado de se ter mexido.
Não preciso de mais para ser feliz.

Dia 16


. Acordar com o sol, beber café, ficar uns minutos no sofá.

Demorar dois segundos a decidir entre começar a arrumar a casa ou deixar para amanhã.
Fazer login, começar a trabalhar.

A manhã passou entre sorrisos e lágrimas.
A ausência dos amigos já pesa nos corações pequenos,
e os telefonemas aos avós já não trazem o gosto dos abraços.
Fazem qualquer coisa, pedem para brincar, eu digo que sim.
Há mais dias para fazer tarefas, e esta é uma manhã de sol.

Saem para fora, regam as plantas, riem, entram com as botas cheias de lama,
riem quando ralho sem ralhar, mudam de calçado.
A gata entra pela janela e enrosca-se num dos colos,
e a Mariana diz baixinho, feliz “este é um momento maravilhoso”.

À tarde o escritório-que-já-foi-quarto transforma-se num estaleiro, onde papéis e brinquedos e tesouras e computador se misturam entre as mesas.
“A mamã está numa aula”, digo-lhes, e é como se nada tivesse dito: entram, saem, riem, pedem ajuda.
“Agora não dá, amor, vai para a sala”, peço.
E do outro lado ouço risos que quem (ainda não tendo filhos) percebe que isto está a ser confuso para todos, que gerir casa e filhos e trabalho e a vida é tarefa que não estávamos assim tão preparados para receber.

Agora é fim do dia.
Sexta, fim de mais uma semana, a segunda (e meia) que passamos em casa.
Aproveito que estão entretidas para escrever mais um bocado.
Olho para as mesas e não encontro as canetas.
Suspiro, resisto ao desejo de por ordem nesta confusão toda.
Afinal, amanhã também é dia.
E vamos todos estar em casa.

Dia 15

. Dia de cuidar, e de agradecer a quem cuida.


Dia de reforçar a importância de colocar a data num trabalho, de manter o caderno limpo. De agradecer mentalmente às professoras, pela forma como têm gerido o que pedem, o que têm de pedir, e o que (as professoras sabem) elas e nós estamos em condições de fazer.
Dia de agradecer aos enfermeiros, bombeiros, polícias, professores, pais, makers, que nestes dias – a partir ou fora de casa – não param para que a vida não pare.

Dia de tratar da roupa e de limpar a varanda, de voltar a entrar em casa e trabalhar mais uma tarde.
Dia de ser grato pelo que se tem.

Dia de arrumar os bonecos e de os adormecer um a um. Dia de falar com as amigas, de ocupar o Whatsapp da mãe, de ver menos Youtube e de terminar mais fichas, dia de pintar mais desenhos.

Dia de colar umas estrelas na parede.
De perceber que algo foi feito.
De dormir na cama da mãe.
E de esperar por mais um dia.

Dia 14


. Acordar com a luz do sol. Pensar que já são 8 horas.
Chegar à cozinha e perceber que pouco passa das 6 e meia.

No escritório que já foi quarto e que agora é de novo escritório,
misturam-se papéis e manuais, brinquedos e canetas.
Percebo, pelo passar dos dias, que precisamos de organização.
De metas, de objetivos alcançados.
E foi talvez por isso que, nos 14 dias que já estamos em casa, este foi o primeiro em que lhes dei “tarefas” – coisa pouca, mas suficiente para lhes dar (a elas) o sentimento de chegar ao fim do dia e ter feito algo.
Seja de igual, seja de diferente.

Temos agora uma folha na parede, onde “O que fizemos hoje” se estende em letras gordas.
“Ajudei a minha mãe a fazer as tarefas”, “Fiz a ficha da página 20”, “Pintei dois desenhos”, “Brinquei com os Pinipons”.

Por cada pequena meta, um coração.
A Magui diz que amanhã são estrelas 

Dia 13


. As bananas que na semana passada estavam verdes já amadureceram.
Ninguém as quer comer – nem eu, que não gosto de bananas –
e começo a desconfiar que as que antes enviava nas lancheiras eram oferecidas a colegas, e não comidas pelas miúdas.

Elas – as miúdas – sentem a falta dos amigos.
Noto-o nos olhos da Mariana,
noto-o na forma como a Magui vai buscar a foto da turma e a coloca na parede,
ao lado da mesa de trabalho.
Estão a adaptar-se a esta vida a quatro.
Gostam, mas nota-se que precisam (todos precisamos) de mais.

Volto a pegar num livro que li há pouco tempo, “Nós e os outros, o poder dos laços sociais”.
Ajudou-me na altura, ajuda-me agora.
Ler sobre aquilo de que sinto falta não me deixa mais triste:
deixa-me com mais certezas daquilo que para mim é importante: o amor e o carinho dos meus.

Ouço agora um barulho na sala, e um “não foi nada, mãe”
(nunca é. a seguir ao barulho vem o silêncio, depois o riso, depois o “se quiseres já podes vir”.
e há menos qualquer coisa na sala, um espaço que agora é menos cheio. e eu nem percebo o que se partiu – era algo, não era alguém. era só mais uma coisa, das centenas de coisas que ocupam os espaços que me custa deixar vazios).

Quando isto passar – porque vai passar – faremos uma grande festa.
E vamos dar aquilo que não nos faz falta,
porque nestes dias percebemos que o que nos faz falta, aquilo que realmente precisamos,
é o que mais queremos ter junto de nós:
os nossos pais, os nossos irmãos, a nossa família.

Estamos a aguentar-nos, um dia de cada vez.
por nós, pelos amigos que estão na linha da frente,
pelos que continuam a sair para trabalhar.
porque é assim que tem de ser.