Dia 12


. Acordar, beber café.
Levar-lhes o pequeno almoço à cama.

Aprender o que são pentaminós
e saber que há 11 maneiras de planificar um cubo.
Constatar que há coisas que nunca mudam,
e que fazer cópias continua a ser uma tarefa chata.
Planear uma brincadeira para 20 minutos,
e descobrir que elas a despacham em 10.
Amainar as primeiras birras.
Continuar a distribuir mimo.

Perguntar “porque se vestem todos os dias?”,
e ouvir “porque a mãe obriga”.
Ouvir uns patins a rolar na sala,
e receber um abraço de um unicórnio de saia aos folhos.

Perceber que é importante registar os dias.
Admitir que preciso de me sentir útil.
Reconhecer que ainda falta muito.
Sentir a esperança de que tudo isto irá passar.

Dia 9


. Acordar, fazer a cama. Fazer café, enroscar cinco minutos no sofá. Aguardar.

As miúdas adaptam-se maravilhosamente a este novo ritmo sem ritmo, organizado em “duas horas de manhã e duas horas à tarde”. O resto do tempo é delas (nem sempre para elas), para fazerem o que mais gostam.

Já quase não há bolo, “mãe, este é mesmo o melhor do mundo!”
As professoras enviam exercícios, mas – também elas em casa com os filhos? – têm uma sabedoria imensa e doseiam tudo com redobrado cuidado.
Elas sabem aquilo que nós dizemos que “o meu filho não!”: que a criança não aguenta muito tempo sentada, que a atenção dispersa, que o cansaço cresce.
Que isto é uma maratona, não um sprint.
Que é preciso gerir o esforço.

Hoje é sexta.
Acordei, fiz pilates, tomei banho, pus máscara no cabelo, tenho caracóis: é a primeira vez em nove dias que não seco o cabelo à bruta e o apanho com elástico logo a seguir.
A fase de “angústia turbulenta” está a passar.
Mantém-se o medo, o susto, a ansiedade, mas a angústia – que anda aqui desde a semana passada – já se instalou e já não incomodada tanto. Assentou, ganhou raízes, aguenta-se sozinha e já não requer que eu olhe por ela.
Aprende-se a viver assim.

Agora chove, e hoje é sexta.
Vamos fazer pipocas, enroscar no sofá e ver filmes até adormecer. Depois vou pegar numa e noutra, e levá-las ao colo até à cama.
Há coisas que mudam.
Felizmente, há outras que não 🙂

Boa semana, valentes.

Dia 8


. A roupa que ontem secou descansa agora nas gavetas.
Há um cheiro bom a limpo, um aroma a dias normais.

Hoje é Dia do Pai, e vamos fazer bolo:
“De chocolate, para depois guardarmos em caixas e o pai levar para o trabalho”.
E elas dizem que “o teu arroz já sabe ao da avó”,
e eu percebo que é o sal, esse sabor que elas começam a sentir falta.

A avó – que continua na luta, a ajudar os que mais precisam – deixou gomas na beira do muro.
Comem-nas duas a duas, quatro a quatro,
e eu deixo porque nestes dias mornos precisamos de coisas assim: fortes, doces, salgadas.
De coisas que nos arranquem destes dias em que um é igual ao outro,
e ao outro,
e ao outro,
e ao outro.

Precisamos, sobretudo, de sentir.
Mesmo que seja medo.
Mesmo que seja receio.
Mesmo que seja saudade.
Mas precisamos de sentir.

eu preciso.


(hoje foi a Margarida quem fez a cama 🙂 )

Dia 7


. Fazer a cama. Arrumar o que ficou disperso.

O ar cheira à roupa que foi lavada, o vento secou o que havia para secar.
Apanhei tangerinas, reguei os vasos.
As meninas tomaram banho, e o cabelo da Margarida cheira a flores e a erva-doce.

Há uma calma em tudo, uma ausência de barulho, que torna estes dias irreais.
Há um mundo aqui entre muros, e outro lá fora.
Lá fora, andam os bravos, os que continuam a trabalhar para que nada nos falte: comida, assistência, segurança, saúde.
Lá fora andam os meus amigos, o meu irmão, a minha sogra, o meu marido.

Esta noite o Gonçalo já dormiu noutro quarto.
Mas o cabelo da Margarida cheira a flores, a erva-doce e a dias de sol.
Cheira aos dias das coisas boas.
Cheira aos dias. das coisas boas.


P.S. – no mercado, já não há carne de porco. há de vaca, a 14 euros o quilo. siga. amanhã é Dia do Pai, e comeremos o melhor bife de todo o sempre.

Dia 6

. Acordar e fazer a cama.
Reunir, falar com alunos.
Ligar aos pais, pela terceira (ou quinta?) vez.
Falar com os irmãos.

Mentalizar que vai passar – porque vai -, só não se sabe quando.
Nem como. Mas vai passar.

Pensar nos amigos que trabalham nos hospitais, nas clínicas.
Enviar um abraço em pensamento, porque a atenção deles não deve ser perturbada por nada.
Pensar na(s) Ana(s), na(s) Rita(s), na(s) Sara(s), no(s) Júlio(s).
Pensar nos professores (da Mariana, da Margarida), nos educadores.
Perceber que há uma razão para a educação de infância ser uma profissão e não um serviço de voluntariado…

Apanhar tangerinas.
Fazer sopa.

Ovar prepara-se para declarar estado de calamidade.
As urgências pediátricas de Aveiro fecham.

A Margarida perdeu (mais) um dente.
Esta noite, a #FadaDosDentes vai estar de serviço