Dia 14


. Acordar com a luz do sol. Pensar que já são 8 horas.
Chegar à cozinha e perceber que pouco passa das 6 e meia.

No escritório que já foi quarto e que agora é de novo escritório,
misturam-se papéis e manuais, brinquedos e canetas.
Percebo, pelo passar dos dias, que precisamos de organização.
De metas, de objetivos alcançados.
E foi talvez por isso que, nos 14 dias que já estamos em casa, este foi o primeiro em que lhes dei “tarefas” – coisa pouca, mas suficiente para lhes dar (a elas) o sentimento de chegar ao fim do dia e ter feito algo.
Seja de igual, seja de diferente.

Temos agora uma folha na parede, onde “O que fizemos hoje” se estende em letras gordas.
“Ajudei a minha mãe a fazer as tarefas”, “Fiz a ficha da página 20”, “Pintei dois desenhos”, “Brinquei com os Pinipons”.

Por cada pequena meta, um coração.
A Magui diz que amanhã são estrelas 

Dia 13


. As bananas que na semana passada estavam verdes já amadureceram.
Ninguém as quer comer – nem eu, que não gosto de bananas –
e começo a desconfiar que as que antes enviava nas lancheiras eram oferecidas a colegas, e não comidas pelas miúdas.

Elas – as miúdas – sentem a falta dos amigos.
Noto-o nos olhos da Mariana,
noto-o na forma como a Magui vai buscar a foto da turma e a coloca na parede,
ao lado da mesa de trabalho.
Estão a adaptar-se a esta vida a quatro.
Gostam, mas nota-se que precisam (todos precisamos) de mais.

Volto a pegar num livro que li há pouco tempo, “Nós e os outros, o poder dos laços sociais”.
Ajudou-me na altura, ajuda-me agora.
Ler sobre aquilo de que sinto falta não me deixa mais triste:
deixa-me com mais certezas daquilo que para mim é importante: o amor e o carinho dos meus.

Ouço agora um barulho na sala, e um “não foi nada, mãe”
(nunca é. a seguir ao barulho vem o silêncio, depois o riso, depois o “se quiseres já podes vir”.
e há menos qualquer coisa na sala, um espaço que agora é menos cheio. e eu nem percebo o que se partiu – era algo, não era alguém. era só mais uma coisa, das centenas de coisas que ocupam os espaços que me custa deixar vazios).

Quando isto passar – porque vai passar – faremos uma grande festa.
E vamos dar aquilo que não nos faz falta,
porque nestes dias percebemos que o que nos faz falta, aquilo que realmente precisamos,
é o que mais queremos ter junto de nós:
os nossos pais, os nossos irmãos, a nossa família.

Estamos a aguentar-nos, um dia de cada vez.
por nós, pelos amigos que estão na linha da frente,
pelos que continuam a sair para trabalhar.
porque é assim que tem de ser.

Dia 12


. Acordar, beber café.
Levar-lhes o pequeno almoço à cama.

Aprender o que são pentaminós
e saber que há 11 maneiras de planificar um cubo.
Constatar que há coisas que nunca mudam,
e que fazer cópias continua a ser uma tarefa chata.
Planear uma brincadeira para 20 minutos,
e descobrir que elas a despacham em 10.
Amainar as primeiras birras.
Continuar a distribuir mimo.

Perguntar “porque se vestem todos os dias?”,
e ouvir “porque a mãe obriga”.
Ouvir uns patins a rolar na sala,
e receber um abraço de um unicórnio de saia aos folhos.

Perceber que é importante registar os dias.
Admitir que preciso de me sentir útil.
Reconhecer que ainda falta muito.
Sentir a esperança de que tudo isto irá passar.

Dia 11


. Dia de altos e baixos.
De perceber que a primavera se instalou e eu nem sequer a vi chegar.
Dia de enfeitar a coroa que penduramos na porta, e tarde de fazer bolo.

Dia de atender o telefone e passar a tarde a tentar ajudar quem não conheço.
De ligar aos pais e sentir saudades.
De desligar e respirar de alívio, por mais um fim-de-semana já ter passado.
De abraçar o Gonçalo e de beijar as minhas filhas.
De limpar e arrumar e preparar os dias mais próximos,
e de olhar para as listas e pensar que “são só planos, apenas planos”.
De me irritar, de respirar fundo, de sorrir e de me irritar de novo.
De admitir que irritar também é preciso.
De sentir que esta casa é um lugar seguro,
mesmo que não estejamos seguros que assim o seja.


Amanhã é segunda.
Aos que andam na rua, a cuidar e para cuidar de nós,
a minha mais profunda e sincera gratidão.

Dia 10


. Há um tempo para tudo.
Um tempo para amar, um tempo para chorar,
um tempo para rir e um tempo para abraçar.
Há um tempo para ser forte,
e um tempo para se deixar levar.
Um tempo para insistir, outro para desistir.

Há um tempo para parar e olhar o caminho,
e outro para pegar na mochila e fazer estrada.
Há um tempo para sonhar.
E fazer planos. E pensar no que ainda está para vir.

Há um tempo para encher de mimos.
Um tempo para dizer que “te amo”,
outro para dizer “te odeio”,
outro para “não posso mais viver sem ti”.
Um tempo para enrolar, um tempo para sorrir, um tempo para beijar.

Há um tempo que se faz de lágrimas,
que se desenha de dor.
Um tempo em que choramos por dentro,
enquanto não somos capazes de sorrir por fora.
Um tempo só nosso. Fundo. Escuro. Negro. Vazio.

Há um tempo para sair.
O tempo em que a respiração pára e o olhar cresce.
O tempo do medo, do anseio, do desejo.
O tempo do “é agora”, o tempo do “já está”.

Há o tempo de ficar quieto. De ouvir e escutar.
De baixar os olhos e respirar baixinho.
De deixar sair o ar sem um ruído.

Há um tempo para tudo.
Tempo para lutar e um tempo para descansar.
Tempo para escrever e tempo para ler.
Tempo para estender a mão.
Tempo para entregar o corpo.
Tempo para desvendar a alma.

E tempo para ser feliz


(publicado pela primeira vez em abril 2014. recuperado agora)