Dia 20

. Acordar, beber café, deixá-las dormir mais um pouco.
O sono não encontrou o caminho, e esta foi uma noite de acordares curtos e sonos leves.
E o dia começa.

Dez horas, pés leves, “mãe, bom dia”.
E faz-se a pausa para o beijo, e “hoje queria torradas quentinhas”, e eu pauso por dez minutos para tratar destas pessoas pequeninas – as mesmas que se enroscam nos meus braços durante a noite, que se sentam no meu colo durante o dia, que perguntam “estão a ver-te?” quando do outro lado riem que sim.

Fim do dia.
Trouxeram-me abacates, há bolachas no armário, há linhas e tecidos espalhados pelo chão.
“mãe, juraste que hoje fazias vestidos”
“eu não jurei, eu disse”
E saio da secretária, e pego na tesoura, e lembro-me de quando era pequena e queria ser costureira como a minha mãe.
“Este é o meu instrumento de trabalho”, respondia de cada vez que eu pedia para usar a máquina de costura. E eu afastava-me, derrotada mas não vencida, e esperava até que ela saísse para me poder sentar e experimentar um pouco daquele mundo mágico, feito de linhas e rendas.

Por isso peguei na máquina, e fui buscar a caixa de panos, e sentei-me na sala arrumada à pressa “porque a mãe vai costurar”. E tentei fazer um pijama, e tentei fazer um vestido.
E elas ignoram as mangas apertadas, e fingem não ver as costuras mal feitas, porque a mãe costurou para elas e isso é o mais importante.

Do dia de hoje, retenho uma frase proferida por alguém que sabe (muito) mais do que eu: não vamos ficar parados, não podemos ficar parados.
A vida – diferente, é certo, mas a vida – continuará daqui a uns dias, ou semanas, ou meses ou quem sabe um ano. E se há uns que saem para cuidar, outros para trabalhar, outros para proteger, outros para fazer com que nada falte a quem cá está, nós – dentro de casa, dentro do que nos é possível – também não devemos parar.


Dia 19

. (dia de acordar mais tarde. a hora mudou, mas o corpo não sabe disso e pede o descanso nas horas a que está acostumado)

Acordar, beber café, ouvir e ver o que se passa no mundo.
São dez minutos importantes, que estabelecem a ligação entre o real de dentro e o de fora, entre a vida dentro de portas e o resto que continua do outro lado dos vidros.

Ontem foi um dia menos fácil de aguentar, o dia em que o sofrimento e a dor dos outros se tornou mais presente, quase físico. É a preocupação connosco e com o outro, o imaginar “e se fosse comigo?”, o tentar evitar a todo custo que o cérebro entre numa espiral de onde será complicado sair. E sair desta luta cansada.

Hoje é segunda, e a vida continua.
As meninas acordam, dizem “hoje é férias”, perguntam se podem ficar de pijama mas falam em mudar de roupa.
Pedem torradas quentinhas, sentam-se no sofá enquanto vêem o Zig Zag. Estão de férias.
E ainda que este dia seja idêntico ao de ontem, e ao de antes de ontem, e ao dia que o precedeu, para elas é diferente: um período terminou, uma etapa foi concluída, é tempo de limpar e arrumar e preparar os meses que aí vêm.

Tenho aprendido muito com elas, nestes 19 dias.
E não falo só de aprender o que são pentaminós, ou de como se calculam quocientes com aproximação às décimas: falo de saber viver o tempo e no tempo presente, saber gerir o esforço, saber respirar fundo, serenar a ansiedade, controlar a frustração.
É um regressar a uma altura em que cada aprendizagem era uma descoberta, cada coisa uma coisa nova.
Fazer este caminho com elas, ainda que nestas circunstâncias, tem sido um privilégio.



(a Magui pediu para limpar os vidros. diz que está de férias, e como não tem de fazer trabalhos pode cuidar da nossa casa. não é “limpar”, é cuidar.
se calhar, aquilo que eu lhes vou dizendo – que devemos agradecer todos os dias o que temos, e que a nossa casa é mais do que paredes, é o lugar onde encontramos abrigo – vai entrando de alguma forma)

Dia 17


. Acordar, beber café, lavar alpendre, limpar janelas.
Limpar vidros, puxadores, interruptores.

Há um cheiro a lixívia que se agarra à “roupa de andar por casa”. É o cheiro a limpezas da Páscoa, quando expulsamos o inverno e nos preparamos para acolher dias maiores.

As miúdas acordam. Venho para dentro, “um beijo, mamã”, e eu fico de alma cheia porque no meio de tudo isto – que dentro de casa, dentro de muros, pouco mais é que quase nada – ainda há espaço para beijos e abraços, para Ioga de pés descalços, para colo de colos pequenos.

A Mariana afina os planos da festa de anos (vão ser 10, daqui a dias), que incluem bolo de chocolate e um dia sem trabalhar. “Tens pasta de açúcar, não tens, mãe?”
E eu digo que sim, e faço um esforço para me lembrar de quantas gotas de água se misturam em açúcar em pó, e quanto tenho de mexer até que a mistura se forme em creme.
Tudo se faz, tudo se resolve. Tudo se (re)inventa.

A avó Lúcia trouxe bolachas, “de baunilha”, “as que nós gostamos”,
e eu percebo que para elas as bolachas de baunilha são como os biscoitos de limão que eu comia quando era pequena: sabem a casa da avó, a abraços apertados.
Digo-lhe “tenha cuidado”, e sinto no peito o orgulho de ser sua nora.

Agora é fim do dia, hora de banhos.
O ar cheira a noite e a relva cortada, e na cozinha há biscoitos.
Falei com os meus, e o coração serenou.
Por hoje basta, o corpo está cansado de se ter mexido.
Não preciso de mais para ser feliz.

Dia 16


. Acordar com o sol, beber café, ficar uns minutos no sofá.

Demorar dois segundos a decidir entre começar a arrumar a casa ou deixar para amanhã.
Fazer login, começar a trabalhar.

A manhã passou entre sorrisos e lágrimas.
A ausência dos amigos já pesa nos corações pequenos,
e os telefonemas aos avós já não trazem o gosto dos abraços.
Fazem qualquer coisa, pedem para brincar, eu digo que sim.
Há mais dias para fazer tarefas, e esta é uma manhã de sol.

Saem para fora, regam as plantas, riem, entram com as botas cheias de lama,
riem quando ralho sem ralhar, mudam de calçado.
A gata entra pela janela e enrosca-se num dos colos,
e a Mariana diz baixinho, feliz “este é um momento maravilhoso”.

À tarde o escritório-que-já-foi-quarto transforma-se num estaleiro, onde papéis e brinquedos e tesouras e computador se misturam entre as mesas.
“A mamã está numa aula”, digo-lhes, e é como se nada tivesse dito: entram, saem, riem, pedem ajuda.
“Agora não dá, amor, vai para a sala”, peço.
E do outro lado ouço risos que quem (ainda não tendo filhos) percebe que isto está a ser confuso para todos, que gerir casa e filhos e trabalho e a vida é tarefa que não estávamos assim tão preparados para receber.

Agora é fim do dia.
Sexta, fim de mais uma semana, a segunda (e meia) que passamos em casa.
Aproveito que estão entretidas para escrever mais um bocado.
Olho para as mesas e não encontro as canetas.
Suspiro, resisto ao desejo de por ordem nesta confusão toda.
Afinal, amanhã também é dia.
E vamos todos estar em casa.

Dia 15

. Dia de cuidar, e de agradecer a quem cuida.


Dia de reforçar a importância de colocar a data num trabalho, de manter o caderno limpo. De agradecer mentalmente às professoras, pela forma como têm gerido o que pedem, o que têm de pedir, e o que (as professoras sabem) elas e nós estamos em condições de fazer.
Dia de agradecer aos enfermeiros, bombeiros, polícias, professores, pais, makers, que nestes dias – a partir ou fora de casa – não param para que a vida não pare.

Dia de tratar da roupa e de limpar a varanda, de voltar a entrar em casa e trabalhar mais uma tarde.
Dia de ser grato pelo que se tem.

Dia de arrumar os bonecos e de os adormecer um a um. Dia de falar com as amigas, de ocupar o Whatsapp da mãe, de ver menos Youtube e de terminar mais fichas, dia de pintar mais desenhos.

Dia de colar umas estrelas na parede.
De perceber que algo foi feito.
De dormir na cama da mãe.
E de esperar por mais um dia.