Dia 50


. Hoje saímos de casa.
Fomos à escola delas, buscar os materiais e os livros que lá ficaram quando, há 50 dias, decidi que já não iriam no dia seguinte.
Fomos de carro, máscaras na mão, “oh mãe mas no carro é preciso?” e eu sem saber bem o que lhes responder.
Do outro lado do portão fechado, a colaboradora da escola ouve o nome das meninas e sobe para ir buscar os materiais.
“Desculpe ter de ser assim”- diz, passando os livros entre as grades – “mas não temos autorização para abrir o portão”.
Pergunto pela família, pergunta pela minha, descobrimos que temos amigas comuns. E eu pego na saca onde já pesam os materiais de um ano que já não vai mais ser na escola, e tenho vontade de chorar.
Ir buscar os livros foi o concretizar de uma situação, o assumir definitivamente (ou mais definitivamente ainda), e agora de forma física, que aquilo que era não voltará a ser.

Para o ano, a Mariana muda de escola. A Margarida fica.
E aquilo que enchia os meus dias de sol, mesmo quando chovia – deixar as duas, a loira e a morena, à porta da escola com um beijo, e ficar à espera (mesmo em dias de chuva) até as ver desaparecer – não se vai repetir.
Fecha-se um ciclo. Assim, sem despedidas.
A Mariana está (aparentemente) bem a lidar com isso, mas eu – que dou tanto valor aos rituais de despedida, que preciso de me despedir das coisas e das pessoas olhando para elas e dizendo “aqui termina” – fico triste e com vontade de chorar.

À tarde houve aulas zoom, viram os amigos, falaram com as professoras. Hoje – com as candidaturas submetidas ontem – conseguimos finalmente avançar e dos trabalhos desta semana pouco ou nada falta. E eu percebo, uma vez mais, que não está a ser fácil equilibrar tudo. Que trabalhar e estar com elas no trabalho que é o delas esgota, cansa, pesa.
Estamos a levar as coisas, há dias em que pouco fazem (os dias em que eu tenho de fazer muito), e há dias em que se avança. Um dia de cada vez.

Hoje é 30 de Abril, amanhã começa Maio. Para mim, os meses continuam a merecer maiúsculas, porque cada um é único e não são todos iguais.
A coroa que ainda tinha o alecrim da Páscoa, agora já seco e quase sem folhas, está enfeitada com as flores que fiz em papel. Não saímos para colher as maias, e esta noite as flores amarelas não enfeitam as nossas portas e portões. Tenho-as lá atrás, no jardim que chamamos monte, mas são ainda tão tenras que não tenho coragem de as colher.

Por isso, fiz flores. Cortei pétalas. Queimei os dedos.
Estamos prontos para receber Maio.
Venha ele como vier.

Dia 49


. Levantei-me cedo, mas demorei a acordar. Estes últimos dias – em que ligo às 8 e desligo às 23 – estão a deixar mossa, o corpo já pesa e pede descanso.
Amanhã descanso. Hoje ainda há coisas para terminar.

As meninas andaram à solta de novo.
Assumo, sem orgulho nem vergonha: não tem sido fácil misturar, no mesmo espaço e nos mesmos tempos, os papéis de tutora e trabalhadora, de cozinheira e guarda roupas, de eu Mónica e eu mãe. E há dias em que deixo andar.
Estes dias cansam, pesam, ficam nos ombros e puxam-me para baixo. Salvam-se as noites (que aqui começam depois das 11), em que nos enroscamos enquanto esperamos que o sono chegue.
A Magui diz que não consegue dormir, eu respondo “então relaxa”, ela retruca que “dizes sempre isso”, eu insisto “não precisas de querer dormir, deixa que o sono encontre a tua almofada”.
E ela encosta-se a mim, esconde o rosto no meu braço, e o sono vem. É assim todos os dias, todas as noites.

O dia da mãe está quase a chegar. Ainda que não tivesse percebido do aproximar da data, o estado em que o escritório-estaleiro está não deixa ninguém no engano: há papéis e fitas, há tubos de cola, pedaços de cartolina, “ó mãe, gostas mais de laranja ou branco?”.Não há purpurinas porque as escondi, quando soube que eram de plástico. Com o brilho colado à cara, à roupa e ao cabelo eu vivia bem. Mas pedacinhos de plástico colados a todo o lado, isso já me incomoda.
E assim hoje fizeram caixas, e bilhetes que guardam na sala, bem à vista, enquanto avisam “não podes ver!!”. E eu finjo que não vejo, a Mariana finge que não vejo, a Magui sabe que vejo. Mas brincamos assim, às zonas desfocadas, aos espaços onde os olhos pousam mas não veem.

Ontem (ou segunda? já nem sei, os dias são tão parecidos…) fizeram-me um chupa-chupa. Há açúcar por todo o lado, pedaços de caramelo na bancada, por muito que limpe aparecem sempre mais.
Mas isso, sinceramente – e ainda que ande cansada, que andemos todos cansados – não tem grande importância.
O chupa-chupa sabe a caramelo, sabe àqueles que se vendiam nas festas e que o meu avô comprava pelo São Vicente.
Pode haver açúcar por todo o lado, mas não tem mal.
Neste chupa, que era uma estrela mas já se partiu, está o amor das minhas filhas e a memória do meu avô.

Dia 48


. Do meu portão ao contentor do lixo são 173 passos.
Sei disso porque os dei há pouco, quando fui colocar o lixo no local devido.

Foi a quarta vez que saí de casa nestes 48 dias.
Vi os terrenos lavrados. Senti o cheiro da terra fresca. Vi o azevém cortado.
Durante a tarde, ouviram-se máquinas agrícolas a desbravar matos atrás de minha casa. A natureza é alheia a quarentenas, e quando ninguém a incomoda tem o seu ritmo que engole tudo.
E é preciso limpar, é preciso lavrar, é preciso cuidar.
Vivo numa terra de agricultores. De pessoas que saem de casa quando os dias nascem e regressam quando eles se despedem. De pessoas semelhantes a tantas outras que, nestes dias de isolamento, têm trabalhado para que à nossa mesa nada falte.

Agora é noite, ouvem-se grilos, e enquanto as nuvens do norte não chegarem às terras da Branca ainda é possível ver as estrelas.
Na minha cama, ocupada por coisas que não me pertencem, estarão daqui a nada duas pessoas que são tudo para mim.
Assim têm sido as nossas noites.
Acho que não me posso queixar 🙂

Dia 47


. Estes têm sido tempos de tempo diferente. Muito lento nos primeiros dias, em que o medo imperava e cada noticiário era seguido com angústia e ansiedade. Em que a cada chamada tentava adivinhar sinais de tosse ou de fraqueza. Dias em que o medo tomou conta.
Depois, dias estranhos, a meio gás. Com manhãs de acordar cedo e fazer muito, tardes letárgicas e fins de dia acelerados.
Demorei a encontrar um ritmo – penso até que ainda não o encontrei. Mas tentar implementar rotinas (para mim, não para elas) tem-me feito adormecer mais cansada e descansada, e acordar com a sensação que o dia já não vai correr em roda-livre.

Hoje acordámos cedo. Vimos a telescola. Ouvimos a história cantada e a história contada.
Magui ao meu colo, Mariana ao meu lado.
Depois deixei-as sozinhas, a gerir o seu tempo, enquanto eu geria o meu.
Ao almoço, sopa e empadão da avó.
À tarde, Mariana crescida, faz os trabalhos do dia e fala com os colegas em Zoom. Vejo-a ao meu lado, serena e atenta, a tomar notas e a escrever nos cadernos enquanto ouve a professora; ouço-a a ler o texto que treinou no fim-de-semana. E fico orgulhosa de todos eles: dela, dos colegas, da professora, dos pais que – à sua maneira e sabe Deus como – estão a conseguir aguentar o barco.

Fim do dia. Hoje choveu, fez frio, caiu granizo, fez sol.Aos segundos raios mais estáveis, “Meninas, já lá para fora!”.
E elas deixam os Youtubes e saem para brincar. A casa faz-se de silêncio, só lá fora se ouve rir.
“Estamos a fazer uma prenda para o dia da mãe, mas não podes ver o que é” (elas sabem que para mim, o melhor não é a surpresa mas a antecipação de a receber, e que – para mim – o melhor é sempre o caminho que se faz e não o destino a onde se chega).

Cai a noite. A Mariana entra no escritório-estaleiro, e pergunta a diferença entre óleo de cozinha e óleo alimentar. Diz que é uma curiosidade, e eu – em modo trabalho – respondo sem pensar no estranho de tal questão.
Dez minutos. E as duas entram na divisão, trazendo “uma surpresa para o dia da mãe mas que se calhar vamos dar hoje”. Um chupa-chupa de caramelo, feito às escondidas entre açúcar, óleo, kits de atividades e micro-ondas.
“Ninguém se queimou?” pergunto, sentindo-me má mãe.
“Não. Lemos as indicações, e fizemos tudo em segurança. Se fosse perigoso não fazíamos”.
E eu percebo que tenho de confiar. Que não vou estar aqui sempre nem para sempre, e que elas mais cedo ou mais tarde (se é que não agora e antes de hoje) vão tentar sozinhas, vão experimentar, vão descobrir.
E que aquilo que me cabe, enquanto mãe, é tentar dar-lhes todas as competências necessárias e partilhar todas as experiências que considere úteis, para as preparar para o futuro que há-de vir.

Dia 46


. Balanço do dia de hoje: já não há bolachas de massa folhada.

As cookies foram-se todas, ainda temos bolacha maria, e pelo menos há regueifa fresquinha. Mas já não há queijo. Já não há cerveja, nem moscatel. Há vinho do Porto, uma garrafa vintage aberta para a Páscoa e que tem servido para temperar a carne.
Há água, há café, há gin. E ainda temos água tónica.

Há maçãs e ainda há morangos, e na fruteira quatro peras abacates amadurecem devagar.
Há cereais, há Nestum, há daquelas coisas com fibra e três frascos de feijão-frade por encetar.
Mudaram-se para cá por engano, pedi grão e veio feijão, e suspeito que vão ficar escondidos mais algum tempo. Pelo menos até eu aprender a fazer migas.

Apetece-me broa de milho, mas não temos. Apetece-me gelado de chocolate, mas já acabou. E queria muito – muito – arroz doce, mas nem para risotto tenho paciência e já deixei queimar o doce três vezes.
Apetece-me a broa frita da minha mãe, e o bolo com creme de leite que a minha sogra faz tão bem.

Hoje foi dia de arrumar a dispensa.
De perceber o que tenho, o que preciso, do que sinto falta.
A vida também se vive pelo paladar, pelas memórias que se constroem e pela comida que no-las faz recordar. Quem leu “Como água para chocolate” sabe do que falo.

São dez e meia.
Acho que vou atrasar a hora de deitar, e vamos as três fazer um bolo 🙂