Dia 25


. Dia 25, Dia de Ramos

Acordar a meio da noite com o barulho da chuva,
pensar nos tapetes deixados no estendal a secar,
virar para o outro lado, enroscar num cabelo a cheirar a flores.

Hoje é Domingo de Ramos.
Um Domingo diferente, vivido da forma a que as circunstâncias obrigam:
sem procissão, sem Eucaristia, sem o cheiro a incenso e alecrim.
Onde antes se cantava “Hossana”, estende-se agora silêncio.

É um Domingo de Ramos diferente, um em que as cruzes e os ramos deixam as Igrejas e se espalham pelas portas de quem – nestes tempos e com medo – sente esta falta de viver a Fé.

Hoje é domingo.
Dia de bacalhau com natas e queques de chocolate, de lanche de regueifa com manteiga, de ficar no sofá com o telemóvel da mãe e de ver um pedaço de um filme que se estava a guardar há séculos.
O dia em que a família se junta no mesmo espaço e se descansa, distrai.

Dia em que cada um faz a sua mochila, reúne as suas forças, arruma o seu coração, para amanhã continuar.

Dia 24

. Passa das oito, a casa está limpa, a roupa secou, daqui a nada vamos jantar.

Lá fora, parece, começa a chover.

Acordei cedo, bebi café.

Do outro lado da casa, tudo dorme.

Não sou pessoa de acordares maus, a sério que não. Mas aqueles minutos que separam o acordar do início do dia são uma necessidade a viver sozinha, em silêncio, são o sair de um mundo que vive na minha cabeça para entrar no mundo onde vivem todos os outros.

Devagar. Com calma.

Acordam ao mesmo tempo, deixamos o papá dormir. Pequeno-almoço embrulhado em mantas, um despertar vagaroso que eu sei que lhes sabe bem.

Pedem que me sente com elas, mas digo que “Hoje é sábado” e elas sabem o que quero dizer: é dia de cuidar da casa, de preparar uma semana, de abrir janelas e de limpar o chão.

Dia quente, almoçar lá fora. Tarde de sol, brincar no jardim.

A Mariana diz “gosto da nossa casa”, a Magui diz “anda brincar connosco. A pele está corada das corridas e da bola, os amuos passam rápido quando o ar cheira a relva e flores.

Fim do dia, hora de banho. O regresso ao cheiro a flores e erva-doce. O secar os cabelos, o dar um beijo nos narizes molhados. “Gosto muito de ti”, digo. “Eu sei”, ouço em resposta.

Gosto dos sábados. Sempre gostei.

Só acho que nunca percebi a importância de o dizer.


Dia 23

. Acordar durante a noite e ver se as meninas estão bem tapadas. Acordar de manhã bem cedo e sair do quarto sem fazer barulho.

A playlist do Spotify mudou, o Lo-Fi beats cedeu lugar a Happy Folk. Há uma necessidade de movimento, de mudança, de algo que se agite nestes dias em que o tempo parece não se mover.

Contabilizo o trabalho feito e vejo que esta semana avancei mais do que nas outras.
São as férias. Os dias sem trabalhos, as rotinas levadas ao mínimo, as horas que se estendem, o relaxar dos dias mais quentes.
A casa está o caos: é o preço a pagar pela produtividade.
Há brinquedos e bolas e restos de tecidos pelo chão, as mesas cobrem-se de lápis por afiar, há mantas por todo o lado e só a minha mesa permanece organizada.
Relaxei, elas relaxaram. Era preciso.
São as férias – iguais aos outros dias, com três em casa e um fora, sem escola e sem família alargada… mas com esta diferença, este folgar das rédeas, este “deixa estar” que nestes dias representa um tempo que se quer diferente.

Amanhã é sábado, e arrumamos.
Por hoje, arranjamos um espaço no sofá – nem que seja expulsando a última almofada que ainda lá permanece – e regressamos às sextas feiras, quando os tempos eram normais.


Dia 22

. Acordar e sair de fininho da cama. Beber café, enroscar no sofá, esticar os músculos, sentar diante do computador, trabalhar.

O dia move-se ao ritmo da hora antiga, mas esta inadaptação não me preocupa: não temos horas de entrada, nem horas de saída.
Acordo mais cedo, é certo, mas deixo-as dormir para que eu – que já acordei – me organize e tenha tempo para trabalhar.

Dez horas, pés pequenos, “bom dia mãe”, pequeno-almoço no sofá.
Dez e meia, som de mimo, abraço de unicórnio, pequeno-almoço na cama.
Mimos pequenos guardados para os dias de festa, mas todos os dias são preciosos e o mimo deve nascer quando se pede, e não apenas quando se justifica ou se precisa dele.

Ao fim do dia, um desenho enviado por uma amiga.
Rosto sério, olhos brilhantes, “o que se passa?”, “hoje sim, estou com saudades dos meus amigos”.
E mais colo, e mais mimo, e mais “sentir saudades é bom, é sinal que gostamos de alguém”.
E um “amanhã faço eu um desenho”.
Olhos já secos, riso de novo fácil, tristeza que se dissipa como as neblinas da manhã.

Assim é a Margarida. Assim são os nossos dias.


Dia 21

. Três semanas em casa, com três saídas apenas: uma para a farmácia, duas para comprar fruta.
Dia de sentir saudades das pequenas coisas que, há três semanas, faziam os rituais dos nossos dias.
De deixar as meninas na escola, e ouvir um “Bom dia!” da Professora Anabela.
De ir para o carro e receber o “bom dia” da Sandrine. De a ver levar os meninos da Probranca, em fila, até ao portão da escola, e de lhes dizer adeus.
De esperar pela gentileza de um condutor, para me meter na Nacional.
De ouvir as Manhãs da 3 até chegar à UA. De reclamar por não ter estacionamento, de tentar enfiar o carro num espaço onde parecia não caber nada, de sair de lado, apertada, para a porta não bater no carro vizinho.
Saudades da D. Lúcia, do “olá amor, é café?”, e da chávena que me entregava antes de ter tempo de dizer que sim.
Saudades do DigiMedia, saudades dos meus colegas, saudades daquelas janelas que parecem não ter fim.
Saudades do “Olá Mónica”, do “Bom dia Carlos”, do “até amanhã, pessoas humanas”.

Saudades dos dias normais.
Daqueles em que vinha para casa, em que tocava à campainha e subia as escadas de casa da minha sogra. Saudades de a ver sorrir enquanto me abria a porta e dizia “hoje está menos frio que ontem”.

Mas é também o terceiro dia de férias, as da Páscoa.
Dia de acordar mais tarde e de voltar a pedir torradas quentinhas. De ficar em pijama até à hora do banho.
De repetirem “não temos nada para fazer”, e de receberem uma folha de papel maior do que o seu tamanho.
De sugerir “desenhem uma cidade”. De ouvir “pode ser uma vila? As cidades são grandes, e gostamos de viver na Branca”.
Dia de responder que sim, e de sorrir porque sinto o mesmo.

Dia de começar mais um mês.
Do tempo todo que deveremos estar em casa – e que não sabemos quanto vai ser – já faltam menos três semanas.